Depois da surpresa, vieram outras perguntas: Como aconteceu? Era inevitável que acontecesse? Poderá acontecer novamente? Surgiram explicações de técnicos e autoridades, e multiplicaram-se reportagens da Imprensa. Num ponto, todos estavam de acordo: trata-se de um fato de gravidade imensa, triste demais para poder ser avaliado profundamente em poucas semanas ou meses.
Momentos como esse têm o dom de nos fazer testemunhar gestos de amor e solidariedade que não vemos no dia a dia. Consola-nos ver que as pessoas têm um imenso potencial de bondade, a ponto de multiplicarem iniciativas para atender ao maior número de pessoas. Momentos assim fazem renascer em nós a esperança no ser humano. Tomamos consciência, por outro lado, que o homem moderno, responsável por tantas descobertas e invenções, não consegue inventar uma máquina que cure as feridas do coraç��o.
O que a fé nos ensina sobre isso? Qual o olhar de Jesus sobre o que aconteceu no Rio Grande do Sul? Que respostas nós, seus discípulos, temos para oferecer às pessoas, famílias e comunidades atingidas pela tragédia?
Começo pelo que é fundamental: Deus não quer o sofrimento de ninguém. Seria um absurdo dizer ou pensar que o que aconteceu era da vontade de Deus. Deus é amor! Seu Filho Jesus desejou que a sua alegria estivesse em nós, e que a nossa fosse completa. Mas, então, onde encontrar uma explicação para tanta dor? Sabemos que há sofrimentos que nascem de descuidos – por exemplo: a criança que se queimou porque ninguém percebeu que ela brincava com fogo ou que estava próxima de um fogão. Há sofrimentos que nascem do coração humano, que premeditadamente deseja fazer o outro sofrer. Há sofrimentos que surgem de omissões ou irresponsabilidades: não foi feito o que deveria ter sido feito como prevenção, ou foi feito de forma errada. Há sofrimentos que são fruto de comportamentos irresponsáveis: o jovem que se excede na bebida, entra em seu carro, dirige a 160km por hora e acaba matando pessoas inocentes. Por fim, há sofrimentos causados pela natureza: a ação de um tsunami, a erupção de um vulcão, a devastação causada por um ciclone ou por uma tempestade interminável, como a que ocorreu no estado gaúcho. Nesse caso, nasce a necessidade de se multiplicar iniciativas para que uma tragédia como essa não se repita, ou não tenha tais proporções. Uma dessas iniciativas diz respeito à natureza: muito do que acontece tem como causa a falta de respeito pelo seu equilíbrio e que leva à sua sistemática destruição. Diz a sabedoria popular: “Deus perdoa sempre; o homem, nem sempre; a natureza nunca perdoa”. Assim, não a respeitando, paga-se um alto preço por isso.
Um dos dons mais preciosos que Deus nos deu é o da liberdade. Criando-nos livres, Ele nos deixa fazer escolhas que podem ser certas ou erradas; permite-nos tomar decisões, mesmo que sejam motivadas pelo egoísmo, pela avidez do lucro ou pelo comodismo – decisões que poderão, inclusive, prejudicar pessoas, grupos e até multidões. Ao nos criar livres, o Senhor nos tornou responsáveis por nossos atos e omissões. Um dia responderemos pelo bom ou mau uso que tivermos feito de nossa liberdade.
O apóstolo Paulo lança uma luz sobre o que estamos refletindo: “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28). “Tudo” – também, pois, os sofrimentos que nasceram e se multiplicaram no Rio Grande do Sul, e deram origem a uma dor nacional. Que Deus nos ajude a tirar lições, principalmente uma que é fundamental: quando um irmão sofre, devemos fazer nosso o seu sofrimento, e estender nossas mãos para ajudá-lo no que pudermos.